Exposição “Memórias de Mulheres Negras na Capoeira: Visibilidade, Luta e Protagonismo em Jogo” transforma o museu em espaço de reconhecimento, ancestralidade e afirmação
O Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia (MAFRO-UFBA) abriu espaço para uma discussão que há muito tempo ultrapassa os limites da roda de capoeira: quem são as mulheres negras que construíram, sustentaram e transformaram essa tradição?
A resposta ganha forma na exposição “Memórias de Mulheres Negras na Capoeira: Visibilidade, Luta e Protagonismo em Jogo”, apresentada no Centro Histórico de Salvador.
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| Exposição “Memórias de Mulheres Negras na Capoeira |
Agência: O Dobrão Online,Segunda-feira,13h.
A mostra nasceu de um projeto idealizado pelas capoeiristas Ábia França, Gandaia e Mestra Voltagrande e coloca em evidência trajetórias femininas que ajudam a compreender a capoeira também como território de memória, resistência e disputa por reconhecimento.
A abertura ocorreu em 14 de agosto de 2026, no MAFRO-UFBA. Agora, mais do que registrar a cerimônia de inauguração, o convite é para conhecer as obras e o espaço e perceber o que essa exposição coloca em jogo: a necessidade de reconhecer mulheres negras como protagonistas de suas próprias histórias.
Três mulheres, três memórias, uma narrativa de resistência
A exposição homenageia Teresa de Benguela, Mestra Tonha Rolo do Mar e Mestra Janja, representadas por bustos escultóricos produzidos pela artista e professora Gandaia.
A escolha dessas referências não é casual.
Teresa de Benguela tornou-se símbolo de resistência negra e liderança quilombola. Já Mestra Tonha Rolo do Mar e Mestra Janja integram a memória e a trajetória da capoeira construída por mulheres negras.
Ao colocar essas figuras lado a lado, a exposição cria uma ponte entre diferentes tempos históricos.
Ancestralidade, memória e presente passam a conversar no mesmo espaço.
É uma escolha especialmente significativa em Salvador, cidade profundamente marcada pelas culturas africanas e afro-brasileiras e pela presença histórica da capoeira.
O busto como instrumento de memória
Transformar essas personagens em esculturas também significa enfrentar uma questão fundamental: quem merece ser lembrado e representado nos espaços culturais?
O busto tradicionalmente está associado à preservação da memória de personalidades consideradas importantes. Ao utilizar essa linguagem para homenagear mulheres negras ligadas à resistência e à capoeira, a artista Gandaia contribui para deslocar o centro dessa representação.
Não se trata apenas de criar retratos.
Trata-se de materializar memórias.
A escultura torna visível aquilo que muitas vezes permanece registrado apenas na oralidade, nas experiências pessoais, nos ensinamentos transmitidos entre gerações e nos corpos que continuam praticando a capoeira.
Mulheres negras já estavam na história da capoeira
A exposição também dialoga diretamente com uma questão identificada por pesquisas realizadas na própria Universidade Federal da Bahia.
Estudo acadêmico desenvolvido na UFBA sobre trajetórias e protagonismo de mulheres na capoeira aponta que, embora a presença feminina seja significativa, ainda existem desigualdades relacionadas ao reconhecimento e à ocupação de posições de poder dentro desse universo. (SIGAA UFBA)
Isso muda a forma de olhar para a exposição.
Ela não está simplesmente “incluindo” mulheres em uma história pronta.
Está ajudando a questionar uma narrativa que muitas vezes não deu às mulheres negras o mesmo espaço de visibilidade e autoridade.
A roda também é um espaço de disputa
A capoeira é feita de movimento, música, ritual, corpo e convivência. Mas também envolve relações sociais e disputas por reconhecimento.
Pesquisas da UFBA sobre mulheres negras na capoeira angola mostram justamente como suas trajetórias estão relacionadas a questões de gênero, raça, memória e poder. Um trabalho publicado em material acadêmico da universidade destaca a importância de mulheres negras assumirem espaços de protagonismo e registrarem suas próprias narrativas dentro da capoeira. (Proex UFBA)
Essa perspectiva é fundamental para compreender o título da exposição.
“Visibilidade, Luta e Protagonismo em Jogo” não é apenas um nome. É uma declaração.
A roda deixa de ser observada somente como prática cultural e passa a ser entendida também como espaço onde identidades, memórias e relações de poder são construídas.
O corpo como arquivo
Existe outra dimensão importante nessa discussão: o corpo.
Na capoeira, o corpo guarda conhecimento.
A ginga ensina.
O gesto comunica.
O ritmo transmite.
A roda preserva.
Pesquisas produzidas na UFBA sobre mulheres negras e Capoeira Angola discutem justamente a ideia do corpo como território de memória e como espaço capaz de carregar experiências, ancestralidades e formas de resistência. (Repositório UFBA)
Por isso, uma exposição sobre mulheres negras na capoeira não precisa falar apenas de documentos escritos.
Ela pode falar de corpos, gestos, esculturas, histórias e memórias.
É nesse encontro entre arte e patrimônio que a mostra ganha força.
De Teresa de Benguela às mestras da capoeira
A presença de Teresa de Benguela amplia ainda mais o alcance simbólico da exposição.
Sua trajetória está associada à resistência de comunidades negras e indígenas no Brasil colonial. Ao aproximá-la das figuras de Mestra Tonha Rolo do Mar e Mestra Janja, a exposição cria uma linha de continuidade entre diferentes experiências de liderança e resistência negra.
Não significa dizer que essas histórias são iguais.
Significa reconhecer que existe uma memória de resistência feminina negra que atravessa gerações.
E a arte permite que essa conexão seja percebida de maneira concreta.
O MAFRO como lugar de memória
A realização da exposição no MAFRO-UFBA acrescenta uma camada importante à proposta.
O Museu Afro-Brasileiro da UFBA tem como missão preservar, pesquisar e difundir referências relacionadas às culturas africanas e afro-brasileiras. Nesse ambiente, discutir a presença das mulheres negras na capoeira significa aproximar patrimônio, arte, história e experiência contemporânea.
O museu passa a funcionar não apenas como lugar onde objetos são preservados, mas como espaço onde memórias são revisitadas e novas narrativas podem ser construídas.
E isso é especialmente relevante para histórias que durante muito tempo tiveram pouca presença nos registros oficiais.
Uma exposição para além da inauguração
A abertura aconteceu em 14 de agosto de 2026, mas a importância da mostra não termina na cerimônia.
Agora começa outra etapa: a aproximação do público com as obras.
Conhecer os bustos, observar os detalhes das esculturas e compreender as histórias das mulheres homenageadas é também uma forma de participar dessa construção de memória.
A exposição convida o visitante a olhar para a capoeira por outro ângulo.
Não apenas como jogo; Não apenas como dança; Não apenas como luta.
Mas como patrimônio vivo e território de conhecimento.
Por que essa exposição importa?
Porque visibilidade não é apenas aparecer.
Visibilidade também significa ser reconhecida como autora da própria história.
Quando mulheres negras ocupam museus, pesquisas, exposições, rodas e espaços de decisão, novas referências passam a existir para as próximas gerações.
Meninas negras que entram em contato com essas histórias encontram algo poderoso: a possibilidade de enxergar mulheres negras não apenas como personagens do passado, mas como mestras, artistas, pesquisadoras, lideranças e produtoras de conhecimento.
Essa mudança de perspectiva é uma das maiores contribuições que uma exposição pode oferecer.
Objetivo Maior: colocar as mulheres no centro também é preservar a capoeira
A história da capoeira não cabe em uma única narrativa.
Ela foi construída por muitos corpos, muitas vozes e muitas gerações.
Mas algumas dessas vozes foram menos registradas, menos reconhecidas e menos celebradas.
Por isso, uma exposição dedicada às memórias de mulheres negras na capoeira não deve ser vista como um complemento à história.
Ela é parte da própria história.
Teresa de Benguela, Mestra Tonha Rolo do Mar e Mestra Janja representam momentos e trajetórias diferentes, mas ajudam a lembrar uma mesma verdade: mulheres negras nunca estiveram ausentes da construção da resistência.
O que muitas vezes faltou foi espaço para que suas histórias fossem vistas.
Agora, elas ocupam o museu; Ocupam a escultura; Ocupam a memória. E ocupam o centro da roda.
Conhecer essa exposição é mais do que visitar obras de arte. É reconhecer quem também construiu a história da capoeira — e garantir que essas memórias continuem sendo transmitidas.
Serviço
Para acompanhar informações e registros da exposição, o perfil oficial do MAFRO-UFBA é o canal indicado pelo museu nas redes sociais.
Para informações atualizadas sobre visitação, programação e atividades, consulte os canais oficiais do MAFRO/UFBA | MAFRO - Museu Afro-Brasileiro Largo do Terreiro de Jesus s/n, Prédio da Faculdade de Medicina da Bahia CEP: 40026-010 Centro Histórico Salvador-BA, Brasil Telefone/Fax: +55 (71)3283-5540 Email: mafro@ufba.br.
Fontes
MAFRO/UFBA — Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia
UFBA — Portal de Programas de Pós-Graduação, com pesquisa sobre trajetória e protagonismo de mulheres na capoeira. (SIGAA UFBA)
Repositório Institucional da UFBA, com pesquisas acadêmicas sobre mulheres negras e Capoeira Angola. (Repositório UFBA)
Revista Feminismos — UFBA, artigo sobre capoeira, ancestralidade, memória e mulheres negras. (Periódicos UFBA)
Instagram oficial do MAFRO-UFBA: @mafroufba


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