A Capoeira é uma das expressões culturais mais originais que o Brasil produziu, pois nasceu do sofrimento e da resistência de africanos escravizados, atravessou séculos de perseguição e criminalização, e chegou ao século XXI reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, logo essa é a história completa da Capoeira: de onde veio, por que foi proibida, quem a legalizou e como ela conquistou o mundo.
As origens: África e Brasil colonial
A Capoeira não nasceu pronta em um único lugar nem em um único momento. Ela foi construída ao longo de séculos, a partir de múltiplas influências africanas que se encontraram no Brasil colonial.
Os africanos trazidos à força (modelo criminoso e legal a época) para o Brasil entre os séculos XVI e XIX vinham de diferentes regiões e etnias — iorubás, bantos, angolanos, congoleses, entre muitos outros. Cada grupo trouxe suas próprias tradições de dança, luta, música e ritos/crenças. No contexto criminoso e brutal da escravidão, essas tradições se misturaram e criaram algo novo: uma forma de resistência disfarçada de dança.
Chefes políticos e mercadores da África Centro-Ocidental (hoje região ocupada por Angola), forneceram a maior parte dos escravos utilizados em toda a América portuguesa. No século XVIII, o comércio do Rio de Janeiro, Recife e São Paulo era suprido por escravos que vinham da costa leste africana (oceano Índico), particularmente Moçambique. No comércio baiano, a partir de meados do século XVII, e até o fim do tráfico, os escravos eram oriundos da região do Golfo de Benin (sudoeste da atual Nigéria). Fonte: INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRFIA E ESTATÍSTICA. Brasil: 500 anos de povoamento. Rio de Janeiro: 2000.
A hipótese mais aceita pelos pesquisadores é a de que a Capoeira surgiu nas senzalas e quilombos do Brasil colonial, principalmente nas regiões da Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco, entre os séculos XVII e XVIII. O disfarce da dança era estratégico, porque praticar luta era proibido e punido com violência. E no embalo os golpes no ritmo do berimbau e da ginga, os escravizados conseguiam treinar sem que os senhores identificassem o que estava acontecendo.
Quilombos e resistência armada
Os quilombos foram os primeiros espaços de liberdade onde a Capoeira pode ter se desenvolvido com mais liberdade. O maior e mais famoso deles, o Quilombo dos Palmares, resistiu por quase um século no interior de Alagoas antes de ser destruído em 1694. Chegavam negros de toda parte em busca de abrigo e segurança, após fuga da escravidão e consigo a Capoeira tomava ainda mais estrutura e força.
A criminalização no século XIX
Com o fim formal da escravidão em 1888 e a proclamação da República em 1889, a Capoeira não ganhou liberdade — ganhou uma lei contra ela. O Código Penal Republicano de 1890, apenas dois anos após a abolição, criminalizou explicitamente a prática da Capoeira nas ruas do Brasil. O artigo 402 previa prisão de dois a seis meses para quem fosse flagrado praticando "exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação Capoeiragem".
A perseguição era violenta e sistemática. Na Bahia e em outros Estados, delegacias especializadas foram criadas para reprimir os capoeiristas, chamados de "desordeiros". Praticar Capoeira, tocar berimbau em público ou reunir grupos para jogar era motivo de prisão, espancamento e até deportação. Muitos capoeiristas foram enviados à ilha de Fernando de Noronha como punição.
Apesar da repressão, a Capoeira não desapareceu. Ela sobreviveu nas periferias, nos portos, nos terreiros de candomblé e nas comunidades negras que a mantiveram viva de geração em geração, mesmo sob risco constante.
Mestre Bimba e a legalização
A virada na história da Capoeira veio com um homem nascido em Salvador, Bahia, em 1900: Manoel dos Reis Machado, conhecido para sempre como Mestre Bimba.
Bimba foi um capoeirista de enorme habilidade técnica e visão estratégica. Ele percebeu que a Capoeira precisava se reorganizar para sobreviver institucionalmente. Em 1932, fundou em Salvador o primeiro centro formal de ensino de Capoeira do Brasil, a Academia de Cultura Regional. Ali, ele sistematizou um estilo próprio que chamou de Luta Regional Baiana — o que hoje conhecemos como Capoeira Regional.
A jogada decisiva de Mestre Bimba foi política. Em 1937, ele realizou uma apresentação de Capoeira para o então presidente Getúlio Vargas. A performance impressionou Vargas, que declarou a Capoeira o esporte nacional do Brasil e autorizou seu ensino regulamentado. A criminalização formal foi encerrada. Após quase cinquenta anos proibida por lei, a Capoeira finalmente tinha o direito de existir.
Mestre Pastinha e a preservação da Angola
Enquanto Mestre Bimba criava e sistematizava a Capoeira Regional, outro mestre fundamental trabalhava em sentido diferente mas igualmente importante: Vicente Ferreira Pastinha, o Mestre Pastinha.
Pastinha dedicou sua vida a preservar a Capoeira Angola, a vertente mais antiga e tradicional, ligada diretamente às raízes africanas. Em 1941, fundou o Centro Esportivo de Capoeira Angola em Salvador. Para Pastinha, a Capoeira Angola não era apenas luta — era filosofia (e além), espiritualidade e memória ancestral. Sua frase mais conhecida resume esse pensamento: "Capoeira é para homem, menino e mulher..."
Bimba e Pastinha, apesar de estilos distintos, são os dois pilares sobre os quais toda a Capoeira moderna se apoia. Um criou um sistema eficiente e moderno. O outro guardou a alma da arte. E mais: eram grandes amigos.
A expansão pelo Brasil e pelo mundo
A partir da legalização, a Capoeira começou a crescer de forma organizada. Na segunda metade do século XX, alunos de Mestre Bimba e Mestre Pastinha espalharam a arte pelo Brasil inteiro e, em seguida, pelo exterior.
O primeiro grande movimento de internacionalização ocorreu nas décadas de 1970 e 1980, quando mestres brasileiros emigraram para os Estados Unidos e Europa levando a Capoeira consigo. Hoje ela é praticada em mais de 150 países, com academias em cidades como Nova York, Londres, Paris, Tóquio e Lisboa.
No Brasil, a Capoeira foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2008. Seis anos depois, em 2014, a UNESCO inscreveu a Capoeira na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade — o reconhecimento mais alto que uma expressão cultural pode receber no plano internacional.
A Capoeira hoje
A Capoeira do século XXI é uma arte plural. Convivem nela a Angola de raiz, a Regional sistematizada por Bimba, e inúmeras vertentes contemporâneas que mesclam elementos das duas escolas. Há grupos acadêmicos, grupos de rua, grupos comunitários e federações esportivas. A Capoeira é ensinada em escolas públicas, universidades, academias particulares e projetos sociais em comunidades de todo o Brasil.
Para quem quer aprender mais sobre a história e a cultura afro-brasileira que moldou a Capoeira, há caminhos acessíveis mesmo fora das academias. A Cursos Abeline oferece cursos gratuitos em diversas áreas de cultura, educação e humanidades. Vale explorar as opções e aprofundar o conhecimento com certificado, no próprio ritmo.
A Capoeira nasceu acorrentada e tornou-se um patrimônio da humanidade. Essa trajetória não é só a história de uma arte marcial, mas a história da resistência de um povo que não desiste fácil.
Camará — O Dobrão Online, seu espaço dedicado à Capoeira brasileira.


