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"Sabido: os negros, as senzalas, o candomblé e a capoeira não eram e nem viviam separados. Até porque esta era a realidade.” - Ru Aisó.

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sábado, 20 de junho de 2026

Golpes da Capoeira: nomes, descrições e origem de cada movimento

A Capoeira é uma arte marcial brasileira de origem africana (criada exclusivamente no Brasil) que combina luta, dança, música e filosofia em um único movimento. Dentro da roda, cada gesto tem nome, história e intenção. Conhecer os golpes da Capoeira é entender a própria linguagem dessa arte e é isso que este guia traz: os principais movimentos, seus nomes, como são executados e de onde vieram.

O que são os golpes da Capoeira?

Na Capoeira, os movimentos de ataque e defesa não se separam de forma rígida como em outras artes marciais. Um golpe pode ser ao mesmo tempo uma esquiva e um contra-ataque. Essa característica vem diretamente da natureza da roda: o jogo é um diálogo corporal entre dois capoeiristas, onde ninguém precisa necessariamente acertar o adversário a intenção, a ameaça e o controle do espaço já fazem parte da vitória.

Os golpes se dividem em três grandes grupos: ataques (chutes, cabeçadas e rasteiras), defesas e esquivas (ginga, cocorinha, role, au) e desequilíbrios (rasteira, banda, tesoura). A maioria dos movimentos existe tanto na Capoeira Angola quanto na Regional, com variações de estilo e velocidade.

Principais golpes de ataque

Meia-lua de frente

É um dos golpes mais conhecidos da Capoeira. O capoeirista lança uma perna em arco horizontal na altura do rosto ou do tronco do oponente, de fora para dentro. O movimento vem da ginga e exige equilíbrio e precisão. Na Capoeira Regional, é executado com mais velocidade e altura; na Angola, com mais malícia e proximidade ao chão.

Meia-lua de compasso

Considerado por muitos o golpe mais poderoso da Capoeira. O praticante apoia as duas mãos no chão e gira o corpo inteiro, lançando o calcanhar em arco amplo na direção do adversário. A força do golpe vem do quadril e do peso do corpo em rotação. É um golpe que exige treino e equilíbrio.

Armada

A armada é um giro de 360 graus onde o capoeirista lança o pé em arco horizontal, com o corpo girando sobre o próprio eixo. Diferente da meia-lua de frente, a armada usa o dorso do pé e exige uma rotação completa. É muito usada em sequências combinadas com outros golpes.

Chapa

A chapa é um chute lateral ou frontal onde o capoeirista usa a planta do pé para empurrar o oponente. Pode ser executada de frente, de lado ou em queda. É um dos golpes de maior contato físico da Capoeira e transmite muita força.

Martelo

O martelo é um chute circular onde o peito do pé atinge o alvo. É rápido, direto e pode ser executado em diferentes alturas, desde o tronco até a cabeça do adversário. Na Capoeira Regional, é um dos golpes mais trabalhados nas sequências de ataque.

Bênção

A bênção é um chute frontal com a planta do pé, executado de forma direta, como um empurrão forte. O nome é irônico: é ao mesmo tempo uma "saudação" e um golpe que pode desequilibrar completamente o adversário. É muito usada para abrir distância ou contra-atacar quando o oponente está próximo demais.

Cabeçada

A cabeçada é um dos golpes mais antigos da Capoeira, ligado diretamente à Capoeira Angola. O capoeirista usa a cabeça para atingir o queixo, o peito ou o abdômen do oponente. Exige muita proximidade e é parte da estratégia de jogo baixo, próximo ao chão.

Principais defesas e esquivas

Ginga

A ginga não é um golpe, mas é o fundamento de todos eles. É o movimento contínuo de deslocamento lateral que o capoeirista realiza enquanto está na roda, mantendo o corpo em constante movimento para não oferecer um alvo fixo. Quem não ginga não joga capoeira.

Cocorinha

É uma esquiva onde o capoeirista desce rapidamente, dobrando os joelhos e agachando o corpo, enquanto protege a cabeça com um braço. É usada para escapar de golpes altos como a meia-lua de frente e o martelo.

Role

O role é um deslocamento lateral no chão, onde o capoeirista gira o corpo ao redor de um pé de apoio, mudando de posição rapidamente. É especialmente usado na Capoeira Angola para sair de golpes baixos e se reposicionar.

Negativa

Na negativa, o capoeirista desce ao chão em posição lateral, apoiando uma das pernas e deixando o corpo próximo ao solo. É ao mesmo tempo uma esquiva e uma posição de transição para contra-ataques.

Principais desequilíbrios

Rasteira

A rasteira é o golpe de desequilíbrio mais famoso da Capoeira. O capoeirista usa o pé ou a perna para varrer a base do oponente enquanto ele está em movimento ou apoiado em um pé. Uma rasteira bem aplicada derruba o adversário sem violência aparente — daí a expressão "dar uma rasteira" na língua portuguesa. É na rasteira que a malícia da Capoeira aparece de forma mais clara.

Banda/da

A banda é uma variação da rasteira onde o capoeirista envolve a perna do oponente com a própria perna, puxando e desequilibrando. Exige mais contato e proximidade do que a rasteira simples.

Tesoura

A tesoura é aplicada com as duas pernas ao mesmo tempo, em forma de tesoura, envolvendo as pernas do oponente e derrubando-o. É um golpe que exige timing preciso e jogo baixo.

A diferença entre Angola e Regional nos golpes

Na Capoeira Angola, os golpes são executados em posição mais baixa, com o corpo próximo ao chão, de forma mais lenta e cheia de malícia. O objetivo não é necessariamente acertar, mas provocar, enganar e dominar o espaço do adversário. A cabeçada, o role e a negativa são golpes muito presentes.

Na Capoeira Regional, criada por Mestre Bimba na Bahia, os golpes são mais altos, rápidos e objetivos. A armada, o martelo e o chute direto têm muito espaço. Mestre Bimba incorporou elementos de outras artes marciais para criar uma Capoeira mais eficaz como sistema de combate.

As duas escolas se respeitam e se influenciam. Na roda, o que importa é o jogo.

Por onde começar a aprender

Conhecer os nomes e as descrições dos golpes é o primeiro passo. O segundo é praticar com orientação. Para quem está distante de uma academia ou grupo de Capoeira, os cursos online são uma alternativa real. A Cursos Abeline oferece cursos gratuitos na área de Educação Física e artes corporais, incluindo conteúdos sobre cultura afro-brasileira. Vale conferir as opções disponíveis e iniciar o aprendizado com certificado, no próprio ritmo.

A Capoeira foi reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2014. Cada golpe carrega séculos de história, resistência e criatividade do povo negro brasileiro. Aprender é também uma forma de honrar esse legado.


Camará — O Dobrão Online, seu espaço dedicado à Capoeira brasileira.

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Entenda de vez as diferenças e a história por trás dos dois estilos.

Capoeira: Angola ou Regional?

Entenda de vez as diferenças e a história por trás dos dois estilos.

A capoeira, essa arte que mistura luta, dança e música, é uma das expressões culturais mais ricas do Brasil (e no mundo). Para quem está começando a mergulhar nesse universo, é comum a dúvida entre os dois estilos que mais se destacam historicamente: a Capoeira Angola e a Capoeira Regional. Embora partilhem a mesma raiz, suas filosofias, movimentos e ritmos se diferenciam de forma significativa.

A história da Capoeira Angola



A Capoeira Angola é a vertente mais antiga e tradicional. Ela carrega em sua essência a história da resistência dos africanos escravizados no Brasil, que a utilizavam como uma forma de expressão cultural e de autodefesa, disfarçada de dança para despistar a vigilância dos opressores. O jogo da Angola é caracterizado pela ginga baixa, rasteira e sinuosa, que simboliza a astúcia e a malícia. Os golpes são executados de forma lenta e cadenciada, valorizando o engano e a teatralidade no confronto. O berimbau, atabaque, pandeiro e reco-reco criam uma orquestra que dita o ritmo lento e grave, fundamental para o diálogo corporal.

Pastinha foi a figura central na formalização da Capoeira Angola como a conhecemos hoje é Mestre Pastinha, ou Vicente Ferreira Pastinha. Ele criou a Capoeira Angola, sendo um de seus maiores defensores e sistematizadores. Pastinha se dedicou a preservar a tradição e a filosofia do jogo antigo, fundando em 1941 o Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA) para ensinar e divulgar o estilo puro. Ele aprendeu a capoeira com Mestre Benedito, um africano idoso, que foi seu primeiro e principal mentor. Pastinha acreditava que a capoeira era um jogo de malícia e inteligência, não de força bruta, e seu legado foi fundamental para que a Angola mantivesse sua identidade ancestral.

A ascensão da Capoeira Regional

Em contrapartida, a Capoeira Regional foi desenvolvida por Mestre Bimba, ou Manuel dos Reis Machado, no início do século XX. Bimba buscava modernizar e dar um novo status à capoeira, que na época era marginalizada e criminalizada. Curiosamente, antes de criar seu próprio estilo, Mestre Bimba era um notável capoeirista de Angola, tendo inclusive se destacado em diversas rodas e desafios. Ele percebeu a necessidade de sistematizar a capoeira para que ela fosse reconhecida como uma arte marcial legítima.

Com essa visão, Bimba criou a Regional, um estilo com movimentos mais rápidos, objetivos e acrobáticos, que incorporavam golpes de outras artes marciais. O jogo da Regional tem uma ginga mais alta e vertical, e a musicalidade é mais acelerada e vibrante. Em 1937, Bimba conseguiu o reconhecimento oficial do governo para sua academia, tornando-se o primeiro mestre a lecionar capoeira de forma legalizada. Ele desenvolveu uma sequência de golpes, o que tornou o aprendizado mais metódico.

Apesar de suas diferenças, os dois estilos são essenciais para a história da capoeira. A Angola representa a tradição, a raiz e a filosofia de um jogo ancestral. A Regional, por sua vez, simboliza a evolução, a formalização e o reconhecimento da capoeira como uma arte marcial. Ambos os estilos coexistem, enriquecendo a cultura brasileira e oferecendo caminhos distintos para quem deseja se aprofundar nessa arte. A escolha entre Angola e Regional é uma questão de afinidade pessoal, mas o respeito e o conhecimento por ambos os legados são fundamentais para qualquer capoeirista.

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