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"Sabido: os negros, as senzalas, o candomblé e a capoeira não eram e nem viviam separados. Até porque esta era a realidade.” - Ru Aisó.

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sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Os dois mestres mais influentes da capoeira e seu legado que...

Os dois mestres mais influentes da capoeira e seu legado que vive hoje: Pastinha e Bimba

A capoeira, expressão cultural afro-brasileira que mistura arte marcial, dança, música e cultura, deve sua sistematização e disseminação global a dois mestres fundamentais...

A capoeira deve sua sistematização e disseminação global a dois mestres fundamentais: Vicente Ferreira Pastinha (1889-1981), guardião da Capoeira Angola, e Manoel dos Reis Machado, o Mestre Bimba (1899-1974), criador da Capoeira Regional. Suas trajetórias, filosofias e contribuições moldaram a capoeira moderna, e seus legados permanecem vivos em rodas pelo mundo.


Mestre Pastinha: A Preservação da Angola e a Filosofia da Malícia/Sagacidade


Vicente Ferreira Pastinha, nascido em Salvador em 1889, é o grande mestre da Capoeira Angola, estilo que enfatiza a tradição, a malícia, a musicalidade e os aspectos culturais e históricos afro-brasileiros. Pastinha aprendeu a capoeira ainda criança com um africano chamado Benedito, que lhe ensinou não apenas os movimentos, mas a filosofia de transformar conflitos em aprendizado e respeito.


Principais Contribuições e Legado:


1. Sistematização da Capoeira Angola: Pastinha organizou e codificou os princípios da Capoeira Angola, destacando a ginga, a malícia (astúcia), a musicalidade e o jogo baixo e próximo ao chão. Ele fundou o Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA) em 1941, no Pelourinho, Salvador, que se tornou um espaço de resistência cultural e formação de mestres.


2. Ativismo Cultural e Resistência: Pastinha lutou contra a criminalização da capoeira (que era proibida pelo Código Penal até os anos 1930) e trabalhou para valorizá-la como patrimônio cultural. Sua escola formou discípulos ilustres como João Grande e João Pequeno, que disseminaram a Angola globalmente.


3. Escrita e Documentação: Pastinha foi um "capoeira-autor", escrevendo manuscritos, canções (ladainhas) e livros como Capoeira Angola (1964), onde registrou sua filosofia. Ele também mantinha um livro de registros do CECA, documentando a memória do grupo e seus membros.


4. Influência Global: Pastinha representou o Brasil no Primeiro Festival Mundial de Artes Negras em Dakar (1966), levando a capoeira para o mundo. Seus discípulos, como João Grande, abriram escolas nos EUA e Europa, garantindo que a Angola permanecesse viva como uma prática de resistência negra.


Apesar dos desafios pessoais, como a perda do CECA e problemas de saúde em seus últimos anos, Pastinha deixou um legado de resistência, dignidade e preservação cultural. Sua filosofia é celebrada em projetos como "A Roda de Capoeira da Eduardo Ribeiro" no Amazonas, que homenageia seu aniversário e promove a Capoeira Angola.


Mestre Bimba: A Revolução da Regional e a Institucionalização


Mestre Bimba, nascido em Salvador em 1899, revolucionou a capoeira ao criar a Capoeira Regional, um estilo mais dinâmico, acrobático e eficiente como arte marcial. Preocupado com a marginalização da capoeira, Bimba a transformou em uma prática respeitável e acessível a todos os estratos sociais.


Principais Contribuições e Legado:


1. Criação da Capoeira Regional: Bimba misturou elementos da Capoeira Angola com movimentos do batuque (luta africana) e golpes de outras artes marciais. Desenvolveu um método de ensino estruturado, com sequências de movimentos e um código de ética que exigia disciplina, higiene e bom comportamento.


2. Legalização e Reconhecimento: Em 1928, Bimba desafiou a proibição da capoeira e, após uma apresentação para o governador Juracy Magalhães, conseguiu sua legalização na década de 1930. Em 1932, fundou a primeira academia de capoeira do mundo, a Academia-Escola de Cultura Regional, em Salvador. Em 1953, o presidente Getúlio Vargas declarou a capoeira "o único esporte verdadeiramente brasileiro" após uma demonstração de Bimba.


3. Sistematização e Rituais: Bimba introduziu rituais como a charanga (orquestra de berimbau e pandeiros), cantigas específicas, e o batizado (cerimônia de formatura). Seus alunos usavam uniformes brancos e lenços coloridos indicando graduação, práticas ainda hoje universais na capoeira.


4. Globalização e Influência: Bimba abriu as portas para a capoeira ser praticada por todas as classes, incluindo artistas, políticos e intelectuais. Seu estilo dinâmico influenciou diretamente a capoeira contemporânea e indiretamente outras artes, como o breaking, devido a seus movimentos acrobáticos.


Bimba faleceu em 1974, mas sua Regional é hoje a vertente mais praticada globalmente. Seu método de ensino é base para academias worldwide, e seu foco na eficiência marcial e no respeito social transformou a capoeira em símbolo da cultura brasileira.


Legados Interligados e Vivos Hoje


Embora Pastinha e Bimba representem estilos diferentes da Angola (tradicional, lenta e maliciosa) e Regional (dinâmica, acrobática e marcial) seus legados se complementam e formam a base da capoeira moderna:


- Preservação vs. Inovação: Pastinha manteve viva a tradição africana, enquanto Bimba adaptou a capoeira aos novos contextos sociais. Hoje, muitas escolas praticam ambos os estilos, reconhecendo a importância dessa dualidade.


- Influência Global: Discípulos de ambos os mestres, como João Grande (Angola) e Jelon Vieira (Regional), levaram a capoeira para o mundo. Jelon, por exemplo, abriu a primeira escola de capoeira fora do Brasil em Nova York (1975) e influenciou diretamente o breaking.


- Cultura Viva: Projetos como o "Rede Capoeira" na Bahia homenageiam esses mestres, enquanto academias de Piracicaba a Bruxelas mantêm vivos seus ensinamentos. Mestres como Cosmo (discípulo de Miguel Machado) enfatizam a elegância do jogo e a resistência negra, ecoando Pastinha, enquanto a Capoeira Regional domina as competições e eventos esportivos.


- Reconhecimento Institucional: A capoeira foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2014, um feito impossível sem as contribuições de Bimba (que a tornou respeitável) e Pastinha (que preservou suas raízes).

Conclusão: Viva Pastinha! Viva Bimba!

Vale lembrar que amizade entre eles dois era muito linda!

Pastinha e Bimba são nossos pilares indissociáveis da capoeira. Seus legados transcendem estilos: representam a resistência negra, a criatividade cultural e a luta por dignidade. Hoje, quando capoeiristas de todos os países gingam nas rodas ao som do berimbau, eles celebram a visão desses dois mestres imortais, que transformaram uma prática marginalizada em uma herança global de liberdade e identidade.

Entenda de vez as diferenças e a história por trás dos dois estilos.

Capoeira: Angola ou Regional?

Entenda de vez as diferenças e a história por trás dos dois estilos.

A capoeira, essa arte que mistura luta, dança e música, é uma das expressões culturais mais ricas do Brasil (e no mundo). Para quem está começando a mergulhar nesse universo, é comum a dúvida entre os dois estilos que mais se destacam historicamente: a Capoeira Angola e a Capoeira Regional. Embora partilhem a mesma raiz, suas filosofias, movimentos e ritmos se diferenciam de forma significativa.

A história da Capoeira Angola



A Capoeira Angola é a vertente mais antiga e tradicional. Ela carrega em sua essência a história da resistência dos africanos escravizados no Brasil, que a utilizavam como uma forma de expressão cultural e de autodefesa, disfarçada de dança para despistar a vigilância dos opressores. O jogo da Angola é caracterizado pela ginga baixa, rasteira e sinuosa, que simboliza a astúcia e a malícia. Os golpes são executados de forma lenta e cadenciada, valorizando o engano e a teatralidade no confronto. O berimbau, atabaque, pandeiro e reco-reco criam uma orquestra que dita o ritmo lento e grave, fundamental para o diálogo corporal.

Pastinha foi a figura central na formalização da Capoeira Angola como a conhecemos hoje é Mestre Pastinha, ou Vicente Ferreira Pastinha. Ele criou a Capoeira Angola, sendo um de seus maiores defensores e sistematizadores. Pastinha se dedicou a preservar a tradição e a filosofia do jogo antigo, fundando em 1941 o Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA) para ensinar e divulgar o estilo puro. Ele aprendeu a capoeira com Mestre Benedito, um africano idoso, que foi seu primeiro e principal mentor. Pastinha acreditava que a capoeira era um jogo de malícia e inteligência, não de força bruta, e seu legado foi fundamental para que a Angola mantivesse sua identidade ancestral.

A ascensão da Capoeira Regional

Em contrapartida, a Capoeira Regional foi desenvolvida por Mestre Bimba, ou Manuel dos Reis Machado, no início do século XX. Bimba buscava modernizar e dar um novo status à capoeira, que na época era marginalizada e criminalizada. Curiosamente, antes de criar seu próprio estilo, Mestre Bimba era um notável capoeirista de Angola, tendo inclusive se destacado em diversas rodas e desafios. Ele percebeu a necessidade de sistematizar a capoeira para que ela fosse reconhecida como uma arte marcial legítima.

Com essa visão, Bimba criou a Regional, um estilo com movimentos mais rápidos, objetivos e acrobáticos, que incorporavam golpes de outras artes marciais. O jogo da Regional tem uma ginga mais alta e vertical, e a musicalidade é mais acelerada e vibrante. Em 1937, Bimba conseguiu o reconhecimento oficial do governo para sua academia, tornando-se o primeiro mestre a lecionar capoeira de forma legalizada. Ele desenvolveu uma sequência de golpes, o que tornou o aprendizado mais metódico.

Apesar de suas diferenças, os dois estilos são essenciais para a história da capoeira. A Angola representa a tradição, a raiz e a filosofia de um jogo ancestral. A Regional, por sua vez, simboliza a evolução, a formalização e o reconhecimento da capoeira como uma arte marcial. Ambos os estilos coexistem, enriquecendo a cultura brasileira e oferecendo caminhos distintos para quem deseja se aprofundar nessa arte. A escolha entre Angola e Regional é uma questão de afinidade pessoal, mas o respeito e o conhecimento por ambos os legados são fundamentais para qualquer capoeirista.

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