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"A memória, na qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro. Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens."

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sábado, 27 de junho de 2026

ANTIRRACISTAS | Ciclo de Oficinas Conhecimento Livre e Perspectivas Antirracistas 2026

 

Ciclo de Oficinas Conhecimento Livre e Perspectivas Antirracistas

Sabemos que com a chegada da internet ao cotidiano brasileiro abriu portas que antes pareciam fechadas para muita gente. A comunicação ficou mais rápida, o acesso à informação se expandiu e o mundo passou a caber na tela de um celular. Mas esse mesmo espaço digital que prometia democratizar o conhecimento acabou revelando, com ainda mais nitidez, as desigualdades que já existiam fora dele.

O ambiente online não é neutro. Ele reflete escolhas, prioridades e, principalmente, quem tem poder para decidir o que aparece e o que fica escondido. Pesquisadores como Tarcízio Silva apontam que os resultados apresentados pelos principais buscadores da web estão diretamente ligados ao reforço de representações culturais que se apresentam como universais, mas que na prática privilegiam rostos, histórias e perspectivas brancas. O que deveria ser conhecimento para todos acaba sendo, na maior parte das vezes, conhecimento sobre alguns.

Quando o algoritmo reproduz o racismo

Um dos exemplos mais concretos disso é o chamado racismo algorítmico. Quando alguém pesquisa por imagens associadas à palavra "pobreza", os resultados trazem majoritariamente figuras de pessoas negras, crianças e mulheres. Já termos como "chefe" ou "riqueza" direcionam para imagens de homens brancos. Não é coincidência. É o reflexo de um sistema que foi alimentado com dados enviesados e que, ao reproduzi-los em escala, normaliza associações que deveriam ser questionadas.

Além da distorção nas imagens que aparecem, há também o problema do que simplesmente não aparece. A ausência de pessoas negras em posições de destaque nos meios digitais não é apenas uma omissão. É uma forma de apagamento que reforça a ideia de que essas histórias não existem, não importam ou não merecem ser contadas.

O que o Wikimedia tem a ver com isso

O universo Wikimedia, que inclui a Wikipédia e outros projetos de conhecimento livre, não está imune a esse problema. As enciclopédias colaborativas reproduzem os mesmos padrões da sociedade quando a maior parte dos editores e dos artigos publicados representa apenas uma parcela da população mundial. Pessoas negras, suas contribuições históricas, suas produções culturais e seus pensamentos seguem sub-representados dentro dessas plataformas.

É nesse contexto que nasce o Ciclo de Oficinas Conhecimento Livre e Perspectivas Antirracistas. A iniciativa convida a comunidade wikimedista, acadêmica e todos os que se mobilizam pela causa antirracista a refletir sobre a presença de saberes e pessoas negras no ambiente Wikimedia. A proposta parte de uma premissa simples e essencial: o conhecimento é humano. E por ser humano, ele carrega vieses. Mas esses vieses podem e devem ser contestados, especialmente quando o objetivo é construir uma internet mais justa e representativa.

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Três histórias que merecem ser lembradas

Como parte do incentivo à visibilidade negra, o ciclo homenageia três personalidades brasileiras que marcaram a história do país e cujas contribuições ainda são pouco conhecidas pelo grande público.

Francisco Solano Trindade viveu entre 1908 e 1974 e foi um dos nomes mais importantes da cultura popular brasileira. Multiartista, poeta e ativista, ele foi um dos fundadores da Frente Negra Pernambucana, criou o Teatro Popular Brasileiro e organizou o I Congresso Afro-Brasileiro. Sua obra é um marco da resistência cultural negra no Brasil.

Virgínia Leone Bicudo nasceu em São Paulo em 1910 e faleceu em 2003. Socióloga e psicanalista, ela foi a primeira pessoa sem formação médica a ser reconhecida como psicanalista no Brasil, tornando-se uma figura central na institucionalização da psicanálise no país. No campo da sociologia, foi pioneira ao dedicar sua dissertação de mestrado, em 1945, ao estudo das relações raciais no Brasil, um tema ainda pouco explorado à época.

Azoilda Loretto da Trindade viveu entre 1957 e 2015 e dedicou sua trajetória à construção de uma pedagogia antirracista. Educadora e intelectual negra, ela teve participação direta na implementação da Lei Federal 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas públicas e privadas do país. Seu legado continua vivo em cada sala de aula que abraça essa obrigação não como formalidade, mas como compromisso real.

Um convite à participação coletiva

Refletir sobre racismo no ambiente digital não é tarefa para poucos. Toda mudança significativa começa com a decisão coletiva de enxergar o problema e agir sobre ele. O Ciclo de Oficinas Conhecimento Livre e Perspectivas Antirracistas é um espaço para isso: para questionar, para aprender, para produzir conhecimento que represente de verdade a diversidade do povo brasileiro.

A equipe organizadora abre esse convite a todos que queiram fazer parte dessa construção. O conhecimento livre só é verdadeiramente livre quando não deixa ninguém de fora.

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