O berimbau é o instrumento mais reconhecível da Capoeira. É ele quem dita o ritmo da roda, determina a velocidade do jogo e comanda os capoeiristas dentro do espaço sagrado da ginga. Sem o berimbau, não há roda. Sem a roda, não há Capoeira.
Este guia explica tudo sobre o berimbau: o que é, de onde veio, como é feito, quais são suas partes e como ele funciona na prática dentro da Capoeira Angola e Regional.
O que é o berimbau?
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É um dos instrumentos mais simples em estrutura e mais complexos em expressão que existem na música popular brasileira. Com apenas uma corda e uma cabaça, um mestre experiente consegue produzir variações sutis de tom que comunicam intenções inteiras dentro da roda.
As partes do berimbau
O berimbau é composto por cinco elementos principais que trabalham juntos para produzir o som característico do instrumento.
A verga é o arco de madeira que forma o corpo do instrumento. Tradicionalmente é feita de biriba, uma madeira nativa da Mata Atlântica encontrada principalmente na Bahia, que combina flexibilidade e resistência. O comprimento ideal da verga varia entre 1,20 e 1,50 metro.
O arame é a corda de aço esticada de uma extremidade a outra da verga. Antigamente era retirado de pneus de bicicleta. Hoje existem arames fabricados especificamente para berimbau, mas a lógica é a mesma: quanto mais tensionado, mais agudo é o som.
A cabaça é o ressonador. É uma espécie de fruto seco e oco, cortado ao meio e preso na parte inferior da verga. Ela amplifica as vibrações da corda e dá profundidade ao som. O tamanho da cabaça influencia diretamente o volume e o timbre do instrumento: cabaças maiores produzem sons mais graves e encorpados.
O dobrão é uma moeda ou pedaço de metal que o capoeirista pressiona contra o arame enquanto toca. Ao encostar o dobrão com mais ou menos pressão, o músico altera a altura do som produzido, criando variações de tom. É esse recurso que permite ao berimbau "falar" dentro da roda.
A baqueta é a vareta fina, geralmente de madeira, usada para percutir o arame. O capoeirista segura também um caxixi na mesma mão da baqueta: um pequeno chocalho trançado que adiciona ritmo ao toque.
Como funciona o berimbau dentro da roda
O berimbau não é apenas um instrumento musical. Dentro da Capoeira, ele é o elemento que organiza toda a dinâmica do jogo. Os toques do berimbau são linguagens com significado específico: há toques que pedem um jogo lento e cadenciado, toques que pedem velocidade e agressividade, toques que indicam perigo e toques que encerram o jogo.
Os principais toques do berimbau incluem o São Bento Grande, o São Bento Pequeno, o Angola, o Iúna, o Cavalaria e o Amazonas. Cada um cria uma atmosfera diferente dentro da roda e os capoeiristas respondem ao toque de forma instintiva, fruto de anos de treinamento.
Na bateria da Capoeira: o conjunto de instrumentos que acompanha a roda normalmente há três berimbaus tocando ao mesmo tempo: o gunga, o médio e a viola. O gunga é o maior, com som mais grave, e é o berimbau principal, tocado pelo mestre. O médio harmoniza com o gunga. A viola improvisa e enfeita o ritmo com variações.
A origem histórica do berimbau
O berimbau tem raízes africanas. Instrumentos semelhantes ao arco musical são encontrados em diversas regiões da África subsaariana, especialmente em Angola, Moçambique e no Congo. Os africanos escravizados trazidos ao Brasil trouxeram consigo esses conhecimentos musicais, que se transformaram e se adaptaram ao contexto brasileiro ao longo dos séculos.
No Brasil, o berimbau esteve associado à Capoeira desde pelo menos o século XIX. Por muito tempo, tocar berimbau nas ruas era suficiente para ser preso a Capoeira era criminalizada e a música do berimbau sinalizava a presença dos capoeiristas. O instrumento funcionava também como sinal de alerta: quando a polícia se aproximava, o toque mudava para avisar os jogadores.
Com a legalização da Capoeira no século XX e sua expansão mundo afora, o berimbau deixou de ser símbolo de resistência clandestina para se tornar um dos instrumentos mais reconhecíveis da cultura brasileira no exterior. Hoje é tocado em mais de 150 países onde a Capoeira está presente.
O berimbau como patrimônio cultural
A Capoeira foi reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2014, e o berimbau é parte indissociável desse reconhecimento. No Brasil, o instrumento é também símbolo da cultura afro-baiana, presente em festas, manifestações culturais e na memória coletiva de Salvador e do Recôncavo Baiano.
Aprender a tocar berimbau é um dos caminhos de entrada na Capoeira para quem não pretende praticar os golpes. Muitos grupos aceitam músicos que desejam integrar a bateria sem jogar na roda.
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